Presença aplicada à vida real
Durante muito tempo podemos procurar presença como se fosse um estado a alcançar.
Procuramos no silêncio, na meditação, numa experiência intensa, num retiro, numa prática espiritual ou num momento em que, por alguns instantes, tudo parece estar no lugar.
Esses espaços podem ser importantes.
Mas a presença começa a ganhar outra profundidade quando deixa de ser apenas uma experiência e passa a participar da forma como vivemos.
Porque regressamos sempre à vida.
À casa.
Ao corpo.
Às relações.
Ao trabalho.
Ao dinheiro.
Às escolhas.
Ao nosso sim e ao nosso não.
É aí que a presença encontra matéria.
Podemos ter compreendido muitas coisas sobre nós e continuar a viver da mesma maneira.
Podemos reconhecer um padrão e continuar a alimentá-lo.
Podemos sentir profundamente quem somos e, ainda assim, abandonar-nos quando chega o momento de fazer uma escolha.
Por isso, para mim, presença não é apenas consciência.
É consciência em relação com a vida.
Às vezes presença é parar.
Outras vezes é avançar.
Às vezes é permanecer numa relação e aprender a escutar.
Outras vezes é reconhecer que chegou o momento de colocar um limite.
Pode ser descansar quando o corpo pede descanso.
Ter uma conversa que estamos a evitar.
Organizar a casa.
Cuidar do dinheiro.
Cumprir uma palavra.
Reconhecer um erro.
Mudar de direção.
Ou simplesmente respirar antes de responder.
Não precisamos reorganizar a vida inteira de uma vez.
Podemos começar pelo que está diante de nós.
O corpo.
Uma relação.
Uma decisão.
Um gesto.
Um passo de cada vez.
Talvez maturidade não seja ter todas as respostas.
Talvez seja tornarmo-nos suficientemente presentes para responder ao que a vida nos apresenta sem nos abandonarmos no caminho.
E isso não exige uma versão extraordinária de nós.
Exige que estejamos aqui.
Com os pés na Terra.
Disponíveis para ver.
Disponíveis para sentir.
Disponíveis para escolher.
A presença não nos retira da vida.
Devolve-nos a ela.
E quando aquilo que reconhecemos interiormente começa a encontrar expressão na maneira como falamos, escolhemos, trabalhamos, nos relacionamos e cuidamos daquilo que nos foi confiado, a presença deixa de ser uma ideia.
Torna-se uma maneira de viver.
Presença aplicada à vida real.
Kwenda Lima